sábado, 14 de setembro de 2013

PASSOS RETARDADOS


Nasci num mundo sobre esteiras rolantes. Talvez por isso eu odeie tanto o caminho longo de esteiras rolantes para fazer baldeação na linha amarela do metrô, talvez odeie o lugar onde vivo. Odeio ver a realidade subjetiva e escondida, bem diante de mim, dura, sólida concreta. Não suporto a realidade.
         Caminho por lugares onde meus passos são quase insignificantes. Eles nem sequer alcançam a velocidade das esteiras que rolam sobre meus pés. E me levam. Mesmo assim, continuo andando, com a convicção de que somos eu e meu corpo os responsáveis por ir adiante. Sou pressionada pela multidão que atrás de mim marcha ansiosa, e sempre com pressa. Mesmo quando há tempo, ninguém da tempo ao tempo. E quando ele vai embora, todos correm atrás loucos por sentirem falta.
         Nunca há tempo para conhecer o que nunca se fez questão de conhecer. Não há tempo no mundo que acolha oportunidades de nos interessarmos pelo que não interessa a nós. Não há tempo, mesmo tendo todas as noites toneladas e toneladas de tempo desperdiçado em sacos pretos nos caminhões de lixo que varrem as madrugadas.
         Como parar a esteira rolante? Por que ninguém pode opinar na decisão sobre qual direção levaria o fluxo? “Siga o fluxo”, aconselham-me os seguranças quando estou perdida. Quem foi que disse que estou indo para o mesmo lugar que o fluxo? Não adianta, está imposto, você não tem escolha.
         Me pergunto como podem multidões se manterem tão passivas. Olharem cansados tediosos em meio a tanto alvoroço. Passamos metade de nossas vidas dormindo, e mamãe diz para “irmos acordando devagarzinho...”. Para acordar não se tem pressa.
         Nada sei. Alguém deve ter caído no vão do meu trem, impedindo a todos de passar. E lá mesmo ficaremos, até que as plataformas encham as filas, de pessoas prontas para esmagar tudo o que resta de nós em nós mesmos.
         Vou andando rápido demais. E cada vez mais meus passos são mais e mais retardados. Dia-a-dia. Mais 24h acabaram de descer minha goela abaixo, e no final meu maior esforço será cagar tudo isso.


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