Nasci num mundo sobre
esteiras rolantes. Talvez por isso eu odeie tanto o caminho longo de esteiras
rolantes para fazer baldeação na linha amarela do metrô, talvez odeie o lugar
onde vivo. Odeio ver a realidade subjetiva e escondida, bem diante de mim, dura,
sólida concreta. Não suporto a realidade.
Caminho
por lugares onde meus passos são quase insignificantes. Eles nem sequer
alcançam a velocidade das esteiras que rolam sobre meus pés. E me levam. Mesmo
assim, continuo andando, com a convicção de que somos eu e meu corpo os
responsáveis por ir adiante. Sou pressionada pela multidão que atrás de mim
marcha ansiosa, e sempre com pressa. Mesmo quando há tempo, ninguém da tempo ao tempo. E quando ele vai embora, todos correm atrás loucos por sentirem
falta.
Nunca há
tempo para conhecer o que nunca se fez questão de conhecer. Não há tempo no
mundo que acolha oportunidades de nos interessarmos pelo que não interessa a
nós. Não há tempo, mesmo tendo todas as noites toneladas e toneladas de tempo
desperdiçado em sacos pretos nos caminhões de lixo que varrem as madrugadas.
Como parar
a esteira rolante? Por que ninguém pode opinar na decisão sobre qual direção
levaria o fluxo? “Siga o fluxo”, aconselham-me os seguranças quando estou
perdida. Quem foi que disse que estou indo para o mesmo lugar que o fluxo? Não
adianta, está imposto, você não tem escolha.
Me
pergunto como podem multidões se manterem tão passivas. Olharem cansados
tediosos em meio a tanto alvoroço. Passamos metade de nossas vidas dormindo, e
mamãe diz para “irmos acordando devagarzinho...”. Para acordar não se tem
pressa.
Nada sei.
Alguém deve ter caído no vão do meu trem, impedindo a todos de passar. E lá
mesmo ficaremos, até que as plataformas encham as filas, de pessoas prontas
para esmagar tudo o que resta de nós em nós mesmos.
Vou
andando rápido demais. E cada vez mais meus passos são mais e mais retardados. Dia-a-dia.
Mais 24h acabaram de descer minha goela abaixo, e no final meu maior esforço
será cagar tudo isso.
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