terça-feira, 29 de outubro de 2013

Abaixo a viagra

Não sei sequer se é azul. Mesmo assim, no céu eu vejo esse que é o azul que há no mundo de mais belo, o que todos podem ver, e dizer que é belo. O que todos podem ver é muito pouco. Talvez o mundo seja um pouco maior do que um ponto, e ele varia de acordo com o tamanho da sua cabeça. É esse o limite, a membrana entre verdade e "o que os olhos não vêem o coração não sente", jargão que faz da hipocrisia nossos senhores, faz nossos joelhos marcados de pedra serem expostos em grandes muros, que nós mesmo construímos, para servirem de exemplo. Vulcão de miséria derrama lava sobre as casinhas de qualquer cidade, e qualquer cidade, é sempre qualquer cidade. Inexistente é ódio, tesão, dor, euforia, pois nada que é 'qualquer' existe para aqueles que são 'CADA'. Mergulhados na sujeira estamos todos de sapatos engraxados levantados para o alto, deixando-nos afundar abaixo dos mesmos. É que quanto mais conhecido, meu corpo limite é distância de ímãs entre toque e repulsão. Me orgulho de nada saber e de tudo querer saber, mas tenho medo de saber. E vejo em minhas falas palavras que já ouvi em algum lugar. Por que do clichê? Coisa gasta é só aquela que não é bem utilizada. Ouço vozes cada vez mais altas e nenhuma parece minha. Talvez como todas as cores somam cinza meu lugar de verdade seja da nuvem fecundação de onde nascem gotas. Enxergar o mundo "sobre ombros de gigantes" é meu caminho, sendo pequena como sou. Calor de meu colo envergonha-me sob olhares congelados de homo sapiens sapiens que viveram olhando só uma mesma parede de sombras. Senhoras e senhores, ladies and gentleman, apresento-lhes minha arte. Tenho fome e anseio carne, HUMANA.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

sábado, 14 de setembro de 2013

PASSOS RETARDADOS


Nasci num mundo sobre esteiras rolantes. Talvez por isso eu odeie tanto o caminho longo de esteiras rolantes para fazer baldeação na linha amarela do metrô, talvez odeie o lugar onde vivo. Odeio ver a realidade subjetiva e escondida, bem diante de mim, dura, sólida concreta. Não suporto a realidade.
         Caminho por lugares onde meus passos são quase insignificantes. Eles nem sequer alcançam a velocidade das esteiras que rolam sobre meus pés. E me levam. Mesmo assim, continuo andando, com a convicção de que somos eu e meu corpo os responsáveis por ir adiante. Sou pressionada pela multidão que atrás de mim marcha ansiosa, e sempre com pressa. Mesmo quando há tempo, ninguém da tempo ao tempo. E quando ele vai embora, todos correm atrás loucos por sentirem falta.
         Nunca há tempo para conhecer o que nunca se fez questão de conhecer. Não há tempo no mundo que acolha oportunidades de nos interessarmos pelo que não interessa a nós. Não há tempo, mesmo tendo todas as noites toneladas e toneladas de tempo desperdiçado em sacos pretos nos caminhões de lixo que varrem as madrugadas.
         Como parar a esteira rolante? Por que ninguém pode opinar na decisão sobre qual direção levaria o fluxo? “Siga o fluxo”, aconselham-me os seguranças quando estou perdida. Quem foi que disse que estou indo para o mesmo lugar que o fluxo? Não adianta, está imposto, você não tem escolha.
         Me pergunto como podem multidões se manterem tão passivas. Olharem cansados tediosos em meio a tanto alvoroço. Passamos metade de nossas vidas dormindo, e mamãe diz para “irmos acordando devagarzinho...”. Para acordar não se tem pressa.
         Nada sei. Alguém deve ter caído no vão do meu trem, impedindo a todos de passar. E lá mesmo ficaremos, até que as plataformas encham as filas, de pessoas prontas para esmagar tudo o que resta de nós em nós mesmos.
         Vou andando rápido demais. E cada vez mais meus passos são mais e mais retardados. Dia-a-dia. Mais 24h acabaram de descer minha goela abaixo, e no final meu maior esforço será cagar tudo isso.


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

de passagem

Preciso de muita comida. Muito pão, muito arroz, muita batata, muita fritura, muito macarrão, muito doce. Preciso de muito peso, peso para baixo, que me grude ao chão, me prenda os pés ao chão. Preciso fincar meus pés no chão.
Cansei, por enquanto, de voar por tudo meu voo rápido, bambo, incerto, em curvas e sem pouso algum ou muitos e muitos pousos, que não paro em mim mesma por querer parar em todos. Preciso de lugar que me faça prisioneira, de causas que me façam guerreira, direções que me façam certeira. Descanso.
Andei pensando o porque de toda a minha viagem. Pelo mundo grande e que tudo abrange, ou pelo pequenino gigantesco mundo interno de cada um. Se alguém se fecha dentro de si, com certeza é porque lá deve ser muito interessante. Gostaria de visitar alguém que se tranca em sua cabeça. Bater na porta, pedir permissão, e se concedida, entrar. Entrar sem lembrar de sair, e poder voltar sempre, pois. Me interessa o tédio, a falta de interesse, o que nada importa, o que se deixa de lado. E tudo também pelo que é normal se interessar. Vazia eu voo longe. Leve flutuo alto. Fraca sou derrubada. Delicada me tropeço. Pequena sou carregada.
Ao chão me joguem, amigos. Me enterrem em algum lugar bonito, e só por hoje. Pois amanhã é dia de contatos.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

cada

Viver intensamente. Onde os passos devem ter o peso de kilos e quilos de farinha. Onde os sons devem filtrar-se por dentro do instrumento, e sair belos, grandes e claros, de dentro para fora. Onde os poemas devem ser lidos, e cada palavra deve tocar como um aperto maior numa corda que amarra nossos pulsos, ou um impulso a mais na bomba de água que esguicha euforia umedecendo todo o ar entorno. Viver livre. Quer dizer viver para sí. Viver para poder viver. Cada nota da música, cada gota de sangue, cada piscar, cada batida, suspiro, respiração.




quarta-feira, 28 de agosto de 2013

" Por que escrevo? Infindável é o número de vezes que já me fiz a mesma pergunta e sempre encontrei a mesma resposta. Escrevo apenas porque em mim alguma coisa não quer morrer e grita pela sobrevivência. Escrevo para que me escutem - quem? um ouvido anônimo e amigo perdido na distância do tempo e das idades... - para que me escutem se morrer agora. E depois, é inútil procurar razões, sou feito com estes braços, estas mãos, estes olhos - e assim sendo, todo cheio de vozes, que só sabem se exprimir através das vias brancas do papel, só consigo vislumbrar a minha realidade através da informe projeção deste mundo confuso que me habita. E também escrevo porque me sinto sozinho. Se tudo isto não basta para justificar porque escrevo, o que basta para justificar alguma coisa na vida? Prefiro as minhas pequenas às grandes razões, pois estas últimas quase sempre apenas justificam mistificações insustentáveis ante um exame mais detalhado."
- Lúcio Cardoso